O vandalismo na creche Maria Luiza Simões Ribeiro (Saboó): Uma outra visão

02/05/2013 11:17

Felipe Queiroz*

Pela segunda vez na mesma semana, hoje de madrugada, a creche municipal Maria Luiza Simões Ribeiro, no bairro santista do Saboó, sofreu invasão e mais atos de vandalismos. Desta vez, inclusive, urinaram na geladeira onde os alimentos para as merendas das crianças são refrigerados. Nada mais que uma amostra do que os trabalhadores da educação pública como um todo, na qual a municipal está incluída, estão sujeitos dioturnamente e de maneira rotineira; recebendo um baixo salário, cujo reajuste irrisório de 1,5% frente ao aumento de 9% do Sr. Prefeito e seus secretários, motivou uma paralisação massiva dos servidores municipais.

A população que utiliza a educação pública, a qual é um direito, também fica refém deste e de outros tipos de violência. Os colchões retirados, as janelas quebradas, os alimentos contaminados com urina, tudo isto atinge frontalmente ao público usuário: crianças, pais, familiares, e comunidade do entorno. 

Obviamente, os jornais burgueses usam o reducionismo da falta de segurança: "Falta polícia! Falta guarda municipal!". É preciso que nós, comunistas, utilizemos este fato específico para chegarmos em uma questão mais geral, político-sociológica, fora do senso comum. A principal pergunta que devemos fazer é "Por quê, geralmente alguém pratica o vandalismo?"

Comecemos onde a creche está localizada: No bairro do Saboó, um bairro conhecidamente pobre, de proletários, de pessoas negligenciadas da atenção do estado representado pelas três esferas de governo, novamente entre elas o municipal que ultimamente tem tido a orla da praia e outras localidades mais nobres como suas meninas dos olhos. E, apesar de que a coisa pública - advinda dos impostos - é a única coisa que a população mais economicamente carente pode possuir, e sucateada incessantemente por nossos governantes mancomunados com a iniciativa privada e as medidas neoliberais por meio do "toma lá, dá cá", culturalmente a coisa pública é tratada como "de ninguém", "ruim", e aí vêm as palavras de ordem errôneas do tipo "privatiza! privatiza! que aí vai melhorar...".

A teoria marxista, pela qual o PCB se pauta, não é distante da realidade: muito pelo contrário. O velho Karl Marx afirmou que é o 'ser social' que determina a consciência dos homens. E o que esperar de um 'ser social' privado de dignidade, senão uma consciência rebaixada? Tais pessoas que praticam tais destruições do patrimônio público estão, muitas vezes, em conflito pessoal, em necessidade da atenção do estado e da sociedade como um todo quanto suas condições de vida. No entanto, a lógica neoliberal segue isolando a causa do vandalismo e de outras práticas violentas à índole e à condição neurológica do praticante, trabalhando exclusivamente no efeito: clínicas de internação, violência policial, câmeras de vigilância, muros e grades nos condomínios para isolar o luxo das 'incômodas' vítimas da fome.

Os pobres e marginalizados são, invariavelmente, culpabilizados pelos atos de vandalismo sem qualquer motivo de fundo social: é a culpa personificada, individualizada caso a caso: "Só pode ser louco"; "Que gente sem coração"; etc... Contudo, para nós o verdadeiro culpado pela maior parte das violências é nosso sistema econômico, o capitalismo, que aprofunda as diferências econômico-sociais e é o causador da alienação humana. Pois a alienação, aprofundada abissalmente no capitalismo moderno, é a grande responsável pelas grandes selvagerias como urinar em comida de crianças; e pior ainda, crianças que são filhas da classe trabalhadora.

Estamos abertos para o debate!

* Membro do Comitê Municipal de Santos do Partido Comunista Brasileiro (PCB), servidor público da área de Educação, estudante de Serviço Social (Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP).