PCB na Baixada Santista

A Baixada Santista, com Santos sendo sua metropole regional, foi uma vanguarda da classe tralhadora. Através do Porto de Santos desembarcavam um grande contingente de imigrantes europeus fortemente politizados que, saídos da Europa onde o capitalismo estava bastante avançado e as lutas mais aguerridas, possuíam utilíssima experiência que serviam de inspiração para as lutas em outras cidades do Brasil.

Segundo o escritor santista Paulo Matos, em seu livro Anchieta, 15 anos, desde o século XIX (quando 80% dos trabalhadores portuários eram imigrantes), Santos colecionou os apelidos "Barcelona Brasileira", "Porto Vermelho", e "Moscou Brasileira", pois era considerada como um dos três principais núcleos do movimento operário do país. Em 1891 Santos foi inclusive o epicentro da primeira greve geral do país. A Baixada Santista também foi terra do abolicionista Silvério Fontes, considerado um dos primeiros marxistas brasileiros, fundador do Centro Socialista de Santos (1895), de modo que a escravidão foi derrubada em Santos no ano de 1886, dois anos antes da assinatura da Lei Áurea pla Princesa Isabel; de Leonardo Roitman, sindicalista, vereador eleito em 1945 pelo PCB (quando o partido era o terceiro maior do Brasil) e impedido de assumir por se declarar abertamente comunista, além de ser despedido da Companhia das Docas em 1964 em virtude do Golpe Militar de 1964; entre muitos outros.

Já em 1922, ano de fundação do PCB, Santos tinha um núcleo do partido no centro da cidade, disputando zonas de influência com o anarquismo e o socialismo vulgar (de caráter essencialmente reformista). A primeira reunião do partido ocorreu em um chalé onde funcionava o Sindicato dos Canteiros, na Av. Bernardino de Campos próximo à Rua Carlos Gomes, onde foram lidos os vinte e um princípios da Terceira Internacional (Komintern). 

Em 1930, a mesma Santos conferiu um índice maciço de seus votos a Minervino de Oliveira nas eleições presidenciais: o candidato negro (nascido três anos após a abolição da escravatura), marmorista, sob a sigla do Bloco Operário Camponês (BOC, a qual encobria o PCB), era o candidato preferencial da classe trabalhadora, a despeito da polarização entre Julio Prestes e Getúlio Vargas. Nas épocas áureas, o PCB chegou a ter centenas de células em toda a Baixada Santista, não só nas indústrias de Cubatão e o Porto de Santos, mas também em diversos locais de trabalho, moradia e estudo. O número de militantes e simpatizantes do partido também era bastante imponente em São Vicente (devido a presença dos comerciários) e no Guarujá (onde as contradições entre as classes são ainda mais evidentes que em outras cidades).

A Ditadura Militar (1964-1985), principalmente por meio de seus atos institucionais, perseguiram os comunistas diligentemente. Alguns dissidiram-se do PCB e foram para a Guerrilha Armada inspirados nas revoluções chinesa ou cubana (que através da guerrilha provocavam "focos" de revolução em vários lugares a fim de enfraquecer o imperialismo), e foram mais duramente perseguidos inicialmente. Após o esfriamento da guerrilha, os militantes do "Partidão" (colocado na ilegalidade pelos militares) passaram a ser o alvo e, no caso de nossa região, a maioria foi torturada, morta, ou se exilou para outos países como Itália, Espanha e União Soviética. As lutas se abrandaram, as células do Partido minguaram-se, dando espaço para a regressão das conquistas de outrora junto da indústria, do porto, da educação, e do setor de comércio e serviços aqui na Baixada.

Com o fim da ditadura o partido adquiriu legalidade, mas suas idéias eram pouco avançadas. Na verdade, a cúpula do partido era composta por um grupo de liquidacionistas liderados por Roberto Freire (hoje no PPS, partido satélite do PSDB), os quais conseguiram inclusive barrar do partido o princípio do centralismo democrático, tão caro para nós marxistas-leninistas, fazendo-nos involuir ainda mais. Livres em 1992 do jugo deste grupo, que queria liquidar o PCB para - na época - transformá-lo em um partido social-democrata através de um congresso espúrio, a esquerda herdeira do PCB precisou tomar a tarefa de reconstruí-lo. Com o crescimento do PT no campo da esquerda (capitaneado pelas disputas eleitorais de Lula) e com as eleições sucessivas dos prefeitos petistas Telma de Souza (1989-1992) e David Capistano Filho (1993-1996) em Santos, e Luca Pedro (1993-1996) em São Vicente, o PT ganhou ainda mais musculatura nos espaços preenchidos tradicionalmente pelo PCB nos movimentos de trabalhadores e estudantil. O fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim também contribuíram para a queda de estima pelo marxismo junto do imaginário da classe operária. O PCB passou a sobreviver como aliado coadjuvante do PT na região. Em 2000 o PCB coloca na suplência da vereadora petista eleita Luzia Neófiti seu então secretário político, o qual assumiu a vaga desta na metade do mandato.

Em 2004, ainda antes do estouro da notícia do "mensalão", o PCB rompe com o governo Lula entregando os poucos cargos que possuía, devido à frustração de não ver um governo de frente popular e de esquerda, e sim um partido comprometido com a "governabilidade" e a gestão do capital (posteriormente, em 2005, várias tendências e filiados avulsos do PT também o abandonariam, alguns fundando o PSOL). Este foi um dos fatores em que pesou as mudanças deliberadas pelo XIII Congresso do PCB (mudanças pelas quais nós da Baixada Santista fomos farol de referência por nossa postura entusiasta), provocando mudanças estratégicas e táticas no seio do partido. O PCB foi acusado de incendiário, sectário, radical, até que a descoberta do mensalão evidenciou que o PT se comportava como qualquer outro partido da ordem, o que conferiu muita autoridade ao PCB pois evidenciou-se que nossa avaliação era correta.

Muitos dizem que de 2005 a 2008 (ano de seu último estatuto) o PCB deu passos de décadas em suas posições políticas comparando com o marasmo e o retrocesso causados pelo engessamento em que se situava: abraçamos o caráter revolucionário e o centralismo democrático, fizemos autocríticas sinceras, passamos a priorizar o militante em detrimento do 'filiado', adquirimos novas leituras do Brasil e do mundo. É um novo renascimento dos tantos que o processo dialético reservou ao partido, sinalizando um futuro auspicioso.

De agora em diante, procuramos militantes sinceros para militar em nossas fileiras. Não procuramos apenas eruditos ou militantes excelentes, procuramos também militantes imperfeitos porém sinceros e honestos, sem ilusões eleitorais, que possuam ao menos uma intuição comunista; alguém que possa se desenvolver junto conosco, militando com pessoas de todo o Brasil rumo a uma sociedade anti-capitalista, anti-fascista, e anti-latifundiária: uma sociedade socialista.